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Cartas um jovem Chef: Caminhos no mundo da Cozinha

SUAUDEAU, Laurent. Cartas a um jovem chef: caminhos no mundo da cozinha. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007
Lançado em 2004 e reeditado em 2007 pela Editora Elsevier, Cartas a um jovem chef integra uma série mais ampla de livros de bolso direcionados a aprendizes em diferentes áreas. Assim como nos outros títulos Cartas a um jovem publicitário, Cartas a um jovem médico, Cartas a um jovem atleta, dentre outros também aqui um profissional de renome busca em sua trajetória pessoal as bases para aconselhar aqueles que se estão iniciando na carreira.
No caso da carreira gastronômica, o mestre atende pelo nome de Laurent Suaudeau. Francês da cidade de Cholet, Laurent vive e trabalha no Brasil desde 1980, quando assumiu o cargo de segundo chef do prestigiado Le Saint-Honoré, no Rio de Janeiro, indicado por Paul Bocuse. De lá para cá, acompanhou de dentro as transformações no campo da gastronomia brasileira, que desembocaram na intensa valorização cultural de que desfruta hoje a profissão de chef de cozinha. Tem como poucos, portanto, a tarimba para não apenas aconselhar os pretendentes a chef, mas também comentar criticamente o atual estado de coisas na área e defender propostas.
Aspirando a ser menos um manual teórico completo do que uma breve compilação de saberes advindos da vivência prática da profissão (como o próprio autor avisa já no primeiro capitulo), o livro assenta-se sobre dois eixos principais: o aconselhamento profissional, propriamente dito a exaltação da importância de se buscar um bom mestre, a definição das qualidades desejáveis a um bom cozinheiro, a importância do conhecimento da metodologia da cozinha clássica francesa e a defesa de uma certa concepção de cozinha contemporânea (e de cozinha brasileira), fundada na valorização dos produtos e da cultura local.
A liga entre estes dois ingredientes é fornecida pela apresentação da trajetória profissional de Laurent, desde o primeiro contato com uma cozinha de restaurante, até a experiência mais recente de montar uma escola de gastronomia, passando pelas vicissitudes do comando de uma brigada de cozinha.
Embora fragmentada e bem mais sucinta do que o leitor guloso gostaria, esta exposição muito facilmente permite compreender os fundamentos da ideologia gastronômica que o chef prega e pratica. Suas principais filiações são claras: com Paul Bocuse, Laurent aprendeu o respeito à grande tradição culinária francesa, a devoção ao serviço exigida pela profissão e a valorização dos produtos locais e da cozinha regional. De Michel Guérard assimilou a ousadia de propor reinterpretações dos conceitos clássicos, a atenção às tendências da época, a abertura às novas tecnologias. E de Jean Guerin herdou a perspectiva ampla acerca do que constitui uma cozinha não apenas técnicas, utensílios e conceitos propriamente culinários, mas também saberes derivados de outros campos, como a química e a antropologia.
Esse mosaico de referências transparece claramente em seus conselhos aos jovens aprendizes, na defesa reiterada do respeito à hierarquia na profissão, à disciplina e aos códigos da cozinha clássica. Outro ponto importante defendido é o conhecimento dos alimentos utilizados, em especial de sua origem e do que ela representa em termos das características organolépticas do produto. Segundo o chef, é esse conhecimento que deverá pautar a metodologia de preparo a ser adotada.
Em uma passagem em que trata da polêmica relativa à adaptação do chef ao gosto do público, ele afirma que “é preciso entender o conteúdo do alimento para adaptar a metodologia, sem descaracterizar a finalidade do prato e o sabor que dele se espera.” (p.45) No seu entender, o grande problema da cozinha contemporânea é a descaracterização do produto.
A compreensão que apresenta do que seja a gastronomia e o papel de um chef no mundo contemporâneo ajudam a explicar esta posição. Para Laurent, a culinária é parte essencial da identidade cultural de uma nação e uma das belas oportunidades abertas a um chef de cozinha com sensibilidade é exatamente a de exercer papel ativo no processo de valorização de uma identidade (local, regional ou nacional) por meio da adequada assimilação dos produtos culinários da terra.
A posição de onde ele fala é a de um profissional cuja trajetória entremeia-se com a história recente da gastronomia brasileira. Sem falsa modéstia, Laurent assume o papel de um dos pioneiros na transformação culinária que teve início no país no principio dos anos 80, marcada pela ressignificação de produtos e preparações até então negativamente valorados. Embora a introdução em uma estrutura de alta-gastronomia francesa de elementos como tucupi, cupuaçu, mandioquinha ou chuchu também tenha se dado em parte pela dificuldade de então em se dispor dos produtos importados, Laurent a defende como um ato de inconformismo ante a miopia da clientela brasileira em perceber a riqueza da produção nativa.
Para o mundo globalizado de hoje, em que se fala constantemente no risco de uma homogeneização da alimentação em escala mundial, Laurent prescreve a volta da cozinha regional e, com ela, o fortalecimento das relações entre os indivíduos e suas raízes. É preciso conhecer profundamente os produtos da terra, incentivar os produtores locais, defender a melhoria da qualidade dos alimentos e buscar, com criatividade e conhecimento, novas formas de aproveitamento, como meio não apenas de se evitar a padronização, mas de democratizar a boa comida.
Talvez sejam esses os conselhos mais importantes; esperemos que os jovens aprendizes assimilem bem a lição.
Comentarista: Patricia de Gomensoro Malheiros



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